Kobe - o terremoto que nunca comentei

   

Nunca gostei de muito de escrever sobre catástrofes e mortes, mesmo que elas tenham ocorrido em desastres naturais como maremotos e terremotos.

Normalmente acho que existem assuntos mais interessantes do que isso, mas vendo e revendo tudo o que ocorreu em Kobe há vinte anos, seria bom deixar registrado alguma coisa.

Quando ocorreu o terremoto eu estava de férias no Brasil.

Disputando a Copa do Imperador fomos eliminados depois de quatro rodadas. Era fim de dezembro, quase chegando o ano novo, quando embarquei de volta pensando em descansar em alguma praia ou campo.

Mal havia saído dos efeitos do fuso horário, quando vejo nos noticiários o que sobrou da cidade de Kobe. Havia morado próximo, tinha alguns conhecidos e amigos, e imediatamente pensei no que poderia ter acontecido com eles.

A catástrofe foi de madrugada, quase amanhecendo e muitos ainda dormiam. Logo foram acordados pelos tremores e em questão de minutos perceberam a intensidade do terremoto.

O incêndio se alastrou rapidamente e a população saiu às ruas para procurar abrigo. As estradas bloqueadas e o frio intenso de janeiro dificultaram bastante à chegada de ajuda e ambulâncias. Foi feio, muito feio.

Retornei ao Japão e iniciamos os treinos. Nosso primeiro jogo daquele ano foi exatamente contra o Vissel Kobe, e vi de perto, com meus olhos tudo o que aconteceu. A imagem do viaduto retorcido como uma toalha depois do banho foi impressionante. Dentro do ônibus o silêncio era absoluto. Havia prédios "intactos" deitados de lado, sem nenhum vidro quebrado. Pareciam peças de dominós. Outros edifícios ficaram com o térreo e o primeiro andar esmagados, mas não houve danos nos outros andares. Apenas ficaram menores.

As praças cheias de fogueiras e barracas, tudo improvisado, mas prontos para não deixar ninguém com frio ou fome. Os quarteirões arrasados e madeiras queimadas para todos os lados. A população carregando o que podia, os caminhões com água potável chegando para ajudar o pessoal. Banheiros químicos sendo construídos em vários locais. Postes sem fios, lâmpadas queimadas, veículos esmagados. Tudo ainda estava intacto.

Em certo momento chegamos a pensar que não haveria o jogo, pois o clima estava péssimo. Não dava para não pensar em tudo o que foi destruído.

Mas os japoneses seguem o que programam e precisamos respeitar.

O estádio estava cheio, a torcida gritando até mais do que o normal. Talvez para desabafar todas aquelas angústias presas em suas gargantas.. O jeito foi gritar, gritar e gritar.

Ontem, 17 de janeiro, às 05h46minfoi realizado uma cerimônia em memória às vitimas. Os que sobreviveram agradeceram pelo fato de estarem aqui, de terem ajudado a reconstruir a cidade, que hoje está mais bela do que nunca.

Mesmo assim, não consigo esquecer o viaduto retorcido.

Terremoto de Kobe