Mulher, mãe e motorista: Erlete, a primeira motorista da Viação Garcia de Londrina

por Caroline Knup - Estagiária*
   

O Dia Internacional da Mulher, celebrado no dia 8 de março, é cada vez mais lembrado como uma data para evidenciar as lutas da mulher por igualdade e respeito. Em homenagem às mulheres, o Portal Bonde selecionou mulheres que se destacam em suas atividades para a série Mulheres Reais. Ao longo de março, a equipe do Bonde vai apresentar as histórias incríveis dessas batalhadoras que atuam em diversos segmentos da sociedade londrinense e fazem a diferença.

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Sucesso após a ascensão do movimento feminista no Brasil, a máxima "lugar de mulher é onde ela quiser” já faz parte da vida de Erlete Donda Frudeli desde seus 15 anos, em 1982. Motorista de ônibus da Viação Garcia, ela encontrou na mãe força e inspiração para começar a carreira nas estradas. A mãe dela foi, em 1973, a primeira mulher motorista de ônibus de Londrina, na companhia VUL (Viação Urbana Londrinense).

A carreira de Erlete começou quando ainda era adolescente. Após trabalhar dez anos como motorista de ônibus, a mãe de Erlete comprou um caminhão e convidou a filha para um trabalho em conjunto. "Assim, com 15 anos eu comecei a trabalhar. Eu já tinha filhos na época, então a gente levava todos juntos nas viagens”, conta.

Reprodução
Anúncio em jornal com a mãe de Erlete, primeira motorista de ônibus de Londrina

Depois do trabalho como motorista ao lado da mãe, Erlete decidiu que era hora de dedicar mais tempo aos filhos e, por isso, deixou as estradas e foi dar aulas de direção em uma autoescola da cidade. Mesmo com um novo emprego, problemas surgiram. "Foi uma época difícil. Algumas mudanças ocorreram por conta de problemas com pagamentos, então, a autoescola começou a dispensar alguns instrutores, inclusive eu.”

Apesar da demissão, Erlete não desistiu. Um dia, na fila do banco, ouviu uma senhora conversar com uma amiga e dizer uma transportadora estava contratando mulheres para dirigir caminhões. Decidida a tentar, a motorista foi até a transportadora e conseguiu o emprego. "Trabalhei lá por 11 anos, com caminhão e carreta”, relembra.

Depois de dois anos, a transportadora terceirizou os serviços de motorista. E isso levou Erlete a seu emprego atual na Viação Garcia. "Eu estava parada fazia dois meses, tinha direito ao seguro-desemprego por mais tempo, mas escutei um apresentador de tevê falando que a Viação Garcia estava contratando mulheres que tivessem CNH (Carteira Nacional de Habilitação) nas categorias D ou E. E essa foi uma coisa que me chamou atenção, porque antes de entrar na transportadora, eu já havia tentado uma vaga na empresa e fui informada de que eles não contratavam motoristas mulheres", recorda.

A condutora profissional esperou doze anos por um emprego para o qual recebeu aplausos na execução do teste. "Fui aplaudida e elogiada por ter sido a melhor e ter passado de primeira”, recorda, orgulhosa do, dia em que conseguiu seu emprego atual, que também deu a ela a conquista de ser primeira mulher a dirigir ônibus para a Viação Garcia de Londrina. Espelhada na mãe, a motorista não esconde o orgulho em desempenhar a profissão.

Caroline Knup/Redação Bonde

Machismo, de homens e de mulheres

Apesar da bonita história como motorista profissional, Erlete não se esquece de como sofreu com episódios de machismo. "Muitos casos já ocorreram, mas tem um que eu não consigo me esquecer. Um dia, estava parada em um semáforo com o caminhão e uma senhora portuguesa veio até mim e me disse que eu era uma vergonha para as mulheres. Outra situação que sempre me lembro se passou também em um semáforo. Um senhor veio até mim, apontou o dedo e me disse que eu havia tirado o emprego dele”, conta.

Mesmo com essas lembranças, Erlete prefere evidenciar as histórias alegres. Como motorista da Viação Garcia, ela é responsável pela direção do ônibus metropolitano que passa por Rolândia, Cambé e Londrina. E é nesta linha que a motorista coleciona boas lembranças. "Muitas pessoas me dizem que voltaram a usar o transporte coletivo no horário em que dirijo por minha causa. Acho que isso acontece porque eu desejo bom dia para todos os meus passageiros e dou um sorriso.”

Quanto ao machismo nas empresas em que trabalhou, Erlete diz que já passou por casos tristes, mas atribui a Deus a força que teve para superar as adversidades e seguir na profissão que sempre foi seu dom. "A gente [mulheres] luta, corre atrás, busca e, mesmo assim, muitas vezes é penalizada sem ter feito qualquer coisa, apenas pelo fato de ser mulher. Mas, tudo isso a gente coloca para Deus, dá um jeitinho, coloca um sorriso, levanta e começa de novo”, conta a motorista.

Inspiração para mulheres motoristas no passado e no presente, Erlete encontrou o apoio que precisava em sua crença divina e em sua mãe. "Foi com minha ela que tudo começou. É uma coisa que vem do sangue.” Hoje, com quatro filhos, a motorista acredita que o "DNA do volante" agiu também em seu filho, que é empresário e possui caminhões e carretas.

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(*Sob supervisão de Luís Fernando Wiltemburg e Larissa Ayumi Sato)

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