Fenômeno nos gramados, frágil no campo pessoal: dependência encurtou a vida de Maradona

por Assessoria de imprensa e Redação Bonde
   
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Esta semana nos surpreendemos com uma triste notícia: o falecimento de um dos grandes ídolos do futebol mundial, Diego Armando Maradona. O talento desse esportista é algo inegável e perdê-lo tão precocemente, no mínimo, suscita uma reflexão. A história de Diego Maradona pode ser comparada à letra de um tango argentino clássico, permeada de paixão e dor e que culminou numa tragédia. É que a curta trajetória do herói portenho contempla capítulos de uma vida intensa, que acumula vitórias com a bola nos pés, em contraste com a eterna luta contra a adicção no campo pessoal.

Se nos gramados o argentino era considerado um Deus, fora dele era a representação fiel de um ser humano comum, passional, controverso, uma figura frágil diante da dependência química.

Maradona teve sua carreira interrompida devido ao uso de álcool e outras drogas, deixando o povo argentino órfão de um de seus mais brilhantes jogadores. O argentino chegou a ser suspenso da Copa do Mundo nos Estados Unidos, em 1994, após testar positivo em um exame antidoping. Na época, marcou a competição com uma de suas frases que entram para a história: "Não me droguei. Cortaram as minhas pernas".

O consumo abusivo das substâncias está relacionado com a morte do ex-atleta, que sofreu uma parada cardiorrespiratória. Ele estava debilitado desde que foi operado de um hematoma na cabeça, no começo desse mês. Além disso, sua saúde inspirava cuidados porque o craque apresentava anemia, desidratação, e um quadro de abstinência devido à dependência de álcool.

Após ter largado o futebol, começou uma luta, de idas e vindas, entre tratamentos para dependência química e fases de uso contumaz de álcool e drogas, sendo a cocaína sua predileção. O desfecho trágico de Maradona é um alerta, sobretudo para os dependentes químicos: não é possível ganhar numa partida contra as drogas. "A vida de quem se envolve com o consumo de substâncias é marcada por sucessivas derrotas para quem não encontra a porta da recuperação”, afirma a psiquiatra Alessandra Diehl, que também é vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos Sobre Álcool e Outras Drogas (ABEAD).”

Segundo ela, menos de 30% dos dependentes conseguem se recuperar. "O Maradona é um representante legítimo dessa estatística e a prova cabal de que as drogas não perdoam ninguém: seja famoso ou anônimo. Mas na vida não há revanches, um jogo de volta. Por isso é preciso preservá-la”, acrescenta.

Dados do mais recente Relatório Mundial sobre Drogas, divulgado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) no ano passado, apontam que em torno de 35 milhões de pessoas sofrem de transtornos decorrentes do uso de drogas e necessitam de tratamento. No entanto, para Alessandra, a prevenção e as intervenções continuam insuficientes em muitas partes do mundo. "Por ano, apenas uma em cada sete pessoas com transtornos decorrentes do uso indevido de drogas recebe tratamento”, diz a psiquiatra.

Ela enfatiza sobre o perigo da dependência química, que não poupou nem mesmo um gênio do futebol. Para o bem e para o mau, Maradona ganhou as páginas da imprensa em grande parte da sua vida. Se por um lado destacou-se pelas atuações brilhantes quando era jogador da liga italiana e quando foi consagrado como campeão do mundo pela seleção argentina, de outro ganhou os holofotes em decorrência de uma vida desregrada, de altos e baixos, no mundo obscuro e doloroso das drogas.

"Não há dúvidas de que a adicção, o consumo de álcool, da cocaína e outras drogas, rouba e encurta o tempo e a capacidade de um talento. O próprio Maradona admitiu em entrevistas que poderia ter feito muito mais em campo se não tivesse se envolvido com o consumo de substâncias. Poderia ter sido ainda mais extraordinário e, sobretudo, continuar vivo. Não sabemos se ele continuava consumindo, mas isso não importa agora. Temos que olhar para trás e compreender os gatilhos da dependência em um astro: como lidar com a fama, como as celebridades se moldam na sociedade e como a nossa sociedade, de certa forma, empurra as pessoas para o consumo de substâncias por meio de uma oferta imensa e a banalização das drogas, no sentido de que a vida deve ser sempre uma festa”, ressalta Alessandra Diehl.

A psicóloga Renata Brasil Araujo, presidente da ABEAD, comenta ainda que o craque tinha dinheiro, fama e uma vida glamourosa, o que demonstra o quanto a dependência atinge a todas as classes sociais. "O que poderíamos ter feito por Maradona? O quanto nós, enquanto sociedade, o ajudamos em sua recuperação? Ou será que, em nosso dia a dia, somos aqueles que apontam o dedo e reforçam um estigma para com as pessoas que sofrem deste transtorno mental ou que consideram que é apenas resultado de falta de força de vontade? Muitas pessoas têm problemas físicos e mentais decorrentes do uso de drogas e cabe a nós as apoiarmos na busca por tratamento, pois quanto mais cedo o problema é detectado, mais chance há para a recuperação”, afirma.

Apoio pode mudar o curso de dependentes

A identificação de problemas, ou seja, de gatilhos, pode evitar o envolvimento com o consumo de drogas ilícitas. As personalidades famosas, por exemplo, nem sempre sabem lidar com ônus e o bônus da fama e estão suscetíveis à dependência. "Além disso, temos que levar em conta o temperamento e a curiosidade de adicto curioso e criativo como o Maradona. Sua própria personalidade contribuiu para o enfrentamento de dificuldades, que fazem parte da vida de todos nós, inclusive dos famosos. Se ele ou alguém tivesse identificado esse problema talvez Maradona não teria entrado nessa”, reflete a psiquiatra.

O ex-jogador e comentarista brasileiro Walter Casagrande comoveu o público nas entrevistas em que falou, com muitas lágrimas, sobre a morte do astro e amigo argentino. Em comum, os atletas da mesma geração partilharam a paixão pelo futebol e conheceram de perto o lado B da dependência química. Casagrande, no entanto, soube enxergar o seu limite e encontrou apoio na família para buscar o tratamento e a reabilitação. Já para Maradona, faltou uma mão para que fosse escalado para o segundo tempo, para continuar firme em campo, até o apito final, nos acréscimos da partida.

"Para o dependente químico a morte dele é ainda mais dura, porque é um espelho, onde é possível se enxergar. Quem estava ao redor de Maradona estava vendo o que estava acontecendo, que estava indo para o fundo do poço e isso me revolta. Ninguém fez nada para evitar. Eu sofro quando morre um dependente químico: para mim é muito duro”, observa Casagrande em entrevistas para a Rede Globo.

O psicólogo Rogério Bosso, membro associado da ABEAD, concorda com o ex-jogador brasileiro, de que faltou apoio para Maradona. "A dependência exige um acompanhamento próximo porque vai se agravando rapidamente. E se o dependente tiver o apoio de um familiar ou amigo próximo talvez não chegue a esse ponto tão extremo, como aconteceu com o Maradona. Esse episódio nos chama a atenção para o fato de que precisamos olhar com mais carinho e atenção para as pessoas. Podemos até mesmo salvar a vida de alguém envolvido com o consumo de substâncias”, destaca Bosso.

Na opinião dele, ninguém está livre das drogas e o episódio da morte de Maradona traz uma reflexão importante. "Por trás de um corpo atlético, resistente dos atletas, se esconde a dificuldade de lidar com algumas situações como a dependência química. Esse problema não escolhe um perfil. Ser famoso mundialmente, como o Maradona, e ter poder aquisitivo elevado, não imuniza as pessoas contra a dependência. Todos são passíveis de enfrentar essa realidade. As pessoas demoram muito para buscar ajuda ou mesmo para oferecer ajuda, porque aguardam que o outro saia dessa”.

Não há milagre

Quando há envolvimento com as drogas nem mesmo a "mão de Deus” é suficiente para definir uma partida contra a morte. Em 1986, nas quartas de final da Copa do Mundo do México, Maradona brilhava durante o jogo contra a Inglaterra. Por volta de seis minutos do segundo tempo, chutou a bola. O goleiro Peter Shilton, da Inglaterra, estava a ponto de impedir o gol, mas o argentino pulou e tocou a bola sutilmente com a mão. O árbitro tunisiano Ali Bin Nasser validou o gol. Quando os jornalistas lhe questionaram se havia marcado com a mão, sua resposta entrou para a história. "Eu fiz com a cabeça de Maradona, mas com a mão de Deus”.

Ao contrário do futebol, na vida, não há lances duvidosos e, com as drogas, não é possível operar milagres para vencer. No seu íntimo, Maradona sabia disso e soube reconhecer que sua carreira poderia ter sido mais duradoura, se não fosse um adicto: "O futebol é o esporte mais lindo e mais saudável do mundo. Eu me equivoquei e paguei”, declarou em 10 de novembro de 2001, na sua partida de despedida, no estádio La Bombonera, casa do Boca Juniors, onde encerrou sua carreira como jogador. Dessa vez, a dependência foi de novo seu algoz e Maradona pagou com a própria vida.

Descanse em paz, Dieguito!

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