Herança ativista faz filho de Lilian Thuram se unir ao pai contra racismo

por Bruno Rodrigues - Folhapress
   

O atacante Marcus Thuram, 22, do Borussia Mönchengladbach, tem sido um dos destaques da Bundesliga desde que o campeonato foi retomado, em 16 de maio. Com quatro gols em quatro rodadas até aqui, o francês já soma dez na competição, além de oito assistências.

Reprodução/Instagram/@thuram_17

Importante na boa campanha de sua equipe, que ocupa o terceiro lugar e até o momento está garantindo uma vaga na próxima edição da Champions League, Thuram também parece ter consciência da plataforma que o futebol lhe dá para discutir, mesmo que com um gesto silencioso, temas que extrapolam as quatro linhas.

Neste domingo (31), ao marcar o segundo gol do Mönchengladbach na vitória por 4 a 1 sobre o Union Berlin, o atacante se ajoelhou no gramado e repetiu o gesto de Colin Kaepernick, ex-quarterback do San Francisco 49ers que ganhou projeção como ícone na luta contra o racismo nos Estados Unidos.

Com a imagem, Thuram não só homenageou George Floyd, o cidadão negro de 46 anos que morreu sufocado por um policial branco no último dia 25, em Minneapolis, mas também prestou seu apoio aos protestos que tomam conta dos EUA desde a última semana.

O gesto do jovem jogador francês advém do que pode ser chamado de herança ativista. Seu pai, Lilian, campeão do mundo com a França em 1998, se tornou uma das mais relevantes vozes contra o racismo e a discriminação no futebol.

Desde que pendurou as chuteiras por um problema cardíaco, em 2008, o ex-defensor da seleção francesa mantém uma fundação com o seu nome, que discute e promove ações sobre o tema. "Nós não nascemos racistas, nos tornamos um", diz o lema da Fondation Lilian Thuram, que conta com apoio do Barcelona, seu último clube na carreira.

Logo depois de anunciar sua aposentadoria, ele recebeu o convite do então presidente francês Nicolas Sarkozy para ser ministro da Diversidade, uma tentativa do governo de aproximar do poder um de seus principais críticos com relação à política imigratória de Sarkozy, que adotou discurso radical de associar a criminalidade no país aos imigrantes.

Thuram, nascido na ilha centro-americana de Guadalupe, sempre fez questão de lembrar que Sarkozy é filho de um imigrante húngaro que se refugiou na França no início da década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial. "Tivemos uma longa conversa, mas, por razões óbvias, eu só podia recusar", disse Thuram em 2009, quando revelou o convite do então presidente e a sua recusa ao ministério.

O argentino Hernán Crespo, que jogou ao lado de Thuram no Parma, parabenizou o filho do ex-companheiro e enalteceu a postura de Marcus, que mantém a veia combativa do progenitor. "Me lembro de você passeando de mãos dadas com seu pai Lilian no parque da Cittadella de Parma. Feliz e orgulhoso que você tenha herdado a personalidade e o senso cívico sempre transmitido por seu pai", disse o ex-atacante.

No último fim de semana, além do gesto de Marcus na vitória do Borussia Mönchengladbach, outros jogadores da Bundesliga aproveitaram a exposição da competição, única entre as grandes ligas europeias que está em atividade, para também mandarem recados relacionados às manifestações nos Estados Unidos. Capitão do Schalke 04 na derrota por 1 a 0 para o Werder Bremen, no sábado (30), o norte-americano Weston McKennie utilizou uma braçadeira com a mensagem "Justiça para George" escrita em inglês.

"Me sinto bem em poder usar a minha plataforma para chamar a atenção a um problema que vem acontecendo há muito tempo. Temos de nos posicionar pelo que acreditamos e eu acredito que é hora de sermos ouvidos", escreveu McKennie no Twitter.

O inglês Jadon Sancho e o marroquino Achraf Hakimi também aproveitaram a goleada do Borussia Dortmund neste domingo para fazerem suas homenagens. Ambos, ao marcarem diante do Paderborn na vitória por 6 a 1, levantaram suas camisetas e mostraram para as câmeras uma outra peça que dizia "Justiça para George Floyd".

"O futebol profissional é muito político. Muita gente quer que achemos que não, mas é extremamente político porque geralmente o futebol é a imagem da sociedade em que vivemos. Há muita gente que não quer perder seus benefícios, sua boa posição na sociedade, e por isso existe o racismo", disse Lilian Thuram em entrevista recente à revista de futebol Líbero, da Espanha. "Até que os jogadores brancos digam não ao racismo, nada mudará", sentenciou o campeão do mundo.

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