Diferente da comum, pneumonia por coronavírus tem alto grau de inflamação e piora rápida

por Géssica Brandino - Folhapress
   

O vírus Sars-Cov-2, causador da Covid-19, fez médicos ao redor do globo se depararem com uma pneumonia com características diferentes.

Reprodução/Pixabay

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a pneumonia, doença inflamatória grave causada por bactérias, vírus, fungos ou pela inalação de produtos tóxicos, é a principal causa de morte de crianças até cinco anos no mundo. No Brasil, a maioria das vítimas são pessoas acima dos 60 anos.

No caso da Covid-19, apenas 20% dos pacientes chegam a desenvolver o quadro de síndrome respiratória aguda, diz a organização. A falta de ar é o alerta para procurar ajuda médica.

Margareth Dalcolmo, pneumologista da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, referência na área, afirma que a pneumonia provocada pelo novo coronavírus tem caráter misto, afetando tanto os alvéolos pulmonares, nos quais ocorrem as trocas gasosas, quanto os interstícios, regiões situadas entre vasos e alvéolos.

Diante da falta de testes específicos, o diagnóstico da Covid-19 tem sido feito por meio de tomografias computadorizadas e do histórico clínico do paciente. Embora nem todos os casos de pneumonia necessitem de internação, diz a médica, quando isso ocorre, o quadro dos pacientes tem surpreendido de forma negativa.

"O Sars-Cov-2 causa uma pneumonia com grau de inflamação nos pulmões enorme. Nesse processo, existe uma porção de substâncias que são protetoras do pulmão e perdem sua função no processo inflamatório, que é muito agressivo e, às vezes, muito rápido e generalizado também", diz Dalcolmo, habituada a tratar casos graves de pneumonia bacteriana e por outros vírus, como H1N1.

Pneumologista do Núcleo de Doenças Pulmonares e Torácicas do Hospital Sírio-Libanês, André Nathan Costa acrescenta que o novo coronavírus destrói as células que revestem os alvéolos e causa lesões pulmonares, que, nas síndromes de desconforto respiratório agudo, são chamadas de "dano alveolar difuso".

"A resposta do corpo contra o vírus é totalmente diferente em relação à bactéria e a lesão alveolar é muito mais grave", diz.

O tratamento também é diferente. No caso da pneumonia bacteriana, é possível tratar o paciente por meio antibióticos, enquanto nas virais, exceto no caso da H1N1 -para qual há um antiviral eficiente, o oseltamivir, conhecido comercialmente como Tamiflu-, não há remédios específicos.

Dalcolmo afirma que, no caso do novo coronavírus, países estão testando vários tipos de antivirais de forma isolada e ou associada a outros medicamentos, mas que o suporte por aparelhos de respiração, os ventiladores, tem se mostrado a forma mais adequada de tratamento.

Entretanto o tempo de permanência que os pacientes de Covid-19 ficam na ventilação mecânica preocupa.

"O que chama atenção -tanto pela literatura dos países que nos antecederam quanto pelos casos que temos aqui- é o tempo que o paciente exige permanecer em ventilação mecânica, porque é muito superior ao que estamos acostumados a ver. A média são três semanas, que é um tempo muito grande", diz a pneumologista da Fiocruz.

Por causa disso, afirmam os médicos, o paciente pode ter o quadro agravado também por uma pneumonia bacteriana que se some à viral. Costa afirma que esse é um problema observado em pacientes com pneumonia causada por influenza e H1N1.

"O sistema imune fica mais deprimido para resposta de bactérias quando você tem um vírus. Sobre o coronavírus, estão começando a sair trabalhos mostrando que é possível uma pneumonia secundária, principalmente hospitalar", diz.

Dalcolmo acrescenta que a maioria dos trabalhos publicados mostraram a necessidade do uso de antibióticos, porque o paciente fica muito tempo na ventilação.

Ter tido uma pneumonia bacteriana no passado, segundo Dalcolmo, não é por si só um fator de risco. "As pneumonias bacterianas no geral respondem muito bem ao tratamento e não deixam sequela alguma", diz.

O cenário é diferente para pessoas com históricos de doenças pulmonares obstrutivas, como bronquite crônica e enfisema pulmonar, que, além de risco maior, têm mais dificuldade de sair da ventilação.

Os pneumologistas ainda não sabem que sequelas pode deixar o período prolongado com respiração auxiliar. Dalcolmo conta que atendeu pacientes em que a lesão pulmonar ainda aparecia nos exames após semanas da alta, o que afirma não ser comum em pneumonias bacterianas ou virais.

"Ninguém sabe dizer ainda que tipo de sequela poderá deixar, se uma fibrose pulmonar cicatricial ou uma sequela de natureza funcional, ou seja, aeróbica. E se essa pessoa poderá ter dano temporário ou definitivo causado por uma lesão inflamatória tão grande", afirma.

"Quando você tem esse dano alveolar difuso, você pode ter uma cicatriz depois no pulmão, dependendo da resposta [ao tratamento] que você teve, mas ainda é muito cedo para falar nisso quanto à Covid-19", completa Costa.

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