Testes para coronavírus: quais são os tipos, as limitações e os gargalos no Brasil

por Ana Bottallo - Folhapress
   

O avanço da Covid-19 em todo o mundo tem esbarrado em uma dificuldade: como determinar quantas pessoas estão com o vírus?

AEN-PR

No Brasil, a orientação dos órgãos de saúde é de que os testes sejam feitos apenas em casos graves. Com isso, muitos casos não são notificados, e a real dimensão da epidemia é desconhecida.

A ampliação dos testes é um dos gargalos enfrentados hoje.

Embora a expectativa seja de testar até 50 mil pessoas por dia, o Ministério da Saúde tem, até o momento, a entrega programada de apenas 9,2 milhões do total de 22,9 milhões previstos.

Dos 9,2 milhões de testes, já foram entregues mais de 900 mil, sendo 104 mil testes moleculares fornecidos pela Fiocruz e outros 300 mil do mesmo tipo doados pela Petrobras. A pasta informou que já distribuiu também 500 mil testes rápidos doados pela Vale, de um montante de 5 milhões, a ser completado ainda no mês de abril.

Na madrugada da última terça-feira (14) chegaram 725 mil testes na capital provindos da Coreia do Sul, que representam o primeiro lote dos 1,2 milhão de testes moleculares comprados pelo governo do estado de São Paulo.

Quem recebeu esses kits foi o Instituto Butantan, que coordena a Plataforma de Laboratórios para Diagnóstico do Coronavírus, rede composta por 45 laboratórios, entre públicos e privados, responsáveis por fazer o diagnóstico no estado.

A chegada de novos insumos deve aliviar o contingente de amostras represadas.

Atualmente, a demanda de exames é de 15,3 mil amostras, das quais aproximadamente 12 mil já foram encaminhadas ou estão em fase de encaminhamento para os laboratórios.

O diretor do Instituto Butantan Dimas Tadeu Covas afirmou em entrevista coletiva que a plataforma processa 2.000 exames por dia. A expectativa é de que a capacidade de processamento total seja de 8.000 amostras por dia.

No entanto, esse número só será atingido quando estiver funcionando em sua capacidade plena - atualmente, 11 laboratórios ainda aguardam credenciamento.

O represamento das amostras levou a uma notificação por parte do Cremesp contra o IAL (Instituto Adolfo Lutz), que era, até a última sexta-feira (10), o centro de recebimento das amostras. Agora, quem distribui os exames para os laboratórios é o Instituto Butantan.

Segundo o órgão, foi identificado o armazenamento incorreto das amostras. O Instituto Adolfo Lutz nega a irregularidade.

Com a plataforma, espera-se também que as unidades regionais do Adolfo Lutz passem a encaminhar as amostras para análise nos laboratórios da rede.

O Instituto Butantan criou um laboratório especializado para a análise das amostras. Com sistema de pipetagem automatizado, o instituto pretende realizar sozinho até dois mil testes diários.

Os testes realizados no instituto serão do tipo RT-PCR (reação em cadeia de polimerase em tempo real).

Também chamados de moleculares, estes testes buscam a presença do vírus no organismo através da análise de material coletado da garganta e nariz do paciente -conhecido por "swab".

O princípio dos testes moleculares é uma reação em cadeia -que dá nome ao procedimento- da enzima polimerase, responsável por "criar" fragmentos de DNA.

O material genético do vírus, que é uma fita simples de RNA, é primeiro transformado em uma dupla fita, o DNA, para fazer a amplificação.

O processo funciona assim: além do material genético presente na amostra, são adicionados em uma placa a polimerase, "primers" -marcadores que se grudam a uma parte conhecida do genoma do vírus- e vários nucleotídeos soltos -os "blocos" de construção.

Essa placa é colocada em uma máquina de PCR -também chamada de termociclador. A máquina, por sua vez, gera vários ciclos com mudança de temperatura (calor, frio, calor) e a cada etapa produz duas fitas adicionais de DNA.

Com várias repetições, o produto final são muitas cópias do material genético inicial -em aproximadamente 4 horas são mais de 1 bilhão de cópias geradas. Assim, mesmo uma quantidade de vírus pequena no organismo pode ser facilmente identificada.

Esses fragmentos são então "lidos" em uma placa de gel de agarose. Como a sonda utilizada tem fluorescência, a presença do vírus pode ser facilmente detectada.

Além disso, os testes RT-PCR diferenciam quantidades "fracas" do vírus de uma presença mais forte viral.

Embora os ciclos sejam relativamente rápidos -de 1 a 2 horas-, todo o procedimento laboratorial leva até 4 horas, e o diagnóstico pode levar dias.

Contudo, a alta qualificação do corpo técnico e os padrões elevados de biossegurança exigidos para os testes PCR com alto índice de confiabilidade sejam produzidos afetam a demanda dos mesmos devido à falta de recursos e à escassez de instituições capacitadas.

O procedimento empregado é o imunocromatográfico. A partir de uma amostra de sangue do paciente, isolam-se os anticorpos, que são acoplados a uma enzima. Vírus e anticorpos são adicionados em uma placa de plástico com 96 micro poços e embebidos em uma substância incolor.

Essa substância incolor permite a aderência do vírus à membrana do poço plástico. As amostras de vírus estão marcadas com ouro coloidal.

Caso os anticorpos presentes no soro sejam específicos para aquele vírus -no caso, o Sars-CoV-2-, vão se ligar a estes. Caso o anticorpo se ligue ao vírus é produzida uma coloração em forma de faixa no local. Assim, são visíveis a olho nu.

Os testes sorológicos serviriam para identificar pessoas que já tiveram contato com o vírus e se tornaram imunes ou foram assintomáticas.

Por serem bem mais rápidos -entre 10 a 30 minutos já é possível obter o resultado- e não necessitarem de laboratórios equipados, especialistas acreditam ser uma boa solução para testar profissionais de saúde, por exemplo, que são muito mais expostos ao vírus.

O problema é que os anticorpos produzidos pelo nosso corpo no início do contágio -entre o 3? e o 5? dia- são os chamados IgM, que são generalistas. Os anticorpos IgG, que são específicos para um agente viral e usados nesse teste, só costumam aparecer na fase tardia de uma infecção -aproximadamente décimo dia.

Além disso, há ainda uma alta taxa de falsos negativos nestes testes, uma vez que os anticorpos podem ser decorrentes de contatos prévios com outros coronavírus que já circulam na população.

Cientistas americanos parecem ter conseguido isolar e identificar anticorpos específicos para o Sars-CoV-2 no sangue de pessoas que foram contaminadas. O estudo foi publicado na plataforma medRxiv na forma de "preprint", ou seja, sem revisão por pares.

Em uma pandemia em tempo real como a da Covid-19, no entanto, uma das barreiras que impedem a implementação desse teste em massa é a dificuldade em identificar pacientes recuperados.

Brasileiros também têm buscado maneiras mais rápidas e eficazes de identificar a presença do vírus na população.

Uma delas é um projeto desenvolvido na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), que desenvolveu um novo protocolo de teste molecular que tem o mérito de usar uma região conhecida do genoma do vírus responsável por formar sua capa de revestimento -o gene "E", de envelope.

Esse protocolo mostrou-se muito mais eficiente nos testes diagnósticos para Sars-CoV-2.

A força-tarefa inclui profissionais de diversos laboratórios e institutos da universidade, que conseguiram credenciar o Hospital das Clínicas de Campinas para receber as amostras e fazer os diagnósticos.

Antes, as amostras eram enviadas para o Instituto Adolfo Lutz, centro de referência para a certificação desses protocolos.

Segundo Matheus Martini, que desenvolve seu pós-doutorado no Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes, com a padronização eles conseguiram aprovação de 100% nas amostras positivas. Por isso, estão otimistas em conseguir realizar os testes na região, desafogando um pouco os testes represados.

Martini conta que seu supervisor, o virologista José Luiz Módena, tem dado suporte e apoio aos integrantes de seu laboratório na nova empreitada. Os alunos de mestrado e doutorado sob sua tutela tiveram a opção de parar os seus projetos em andamento e receber treinamento para atuar na crise.

Os alunos e pesquisadores, que recebem financiamento de agências de fomento públicas, estão usando os reagentes comprados para realizar suas dissertações e teses para o diagnóstico da Covid-19.

"A gente não sabe quanto vão durar [os reagentes], esperamos que por um bom tempo, porque a gente não sabe quando vai receber os insumos novos. Mas estamos recebendo bastante apoio da instituição e do MCTIC [Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação]. Fazemos o que a gente pode", diz.

Os cortes em pesquisa e inovação têm aplacado as instituições públicas, que viram o orçamento federal para a ciência cair nos últimos anos para menos da metade do que era em 2012.

No entanto, iniciativas como a de Módena mostram que as universidades públicas ainda estão preparadas para enfrentar as dificuldades e colaborar no combate ao novo coronavírus.

"Como já temos contato com empresas que vendem os kits moleculares e temos a vantagem de ter pessoal treinado e capacitado, esperamos conseguir realizar até 5 mil testes por dia", finaliza Martini.

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