HC da USP e Sírio-Libanês já testam anticoagulantes em quem tem vírus

por Phillippe Watanabe e Ana Botallo - Folhapress
   

Frear a ampla ação de coagulação que ocorre com a hiperinflamação causada pela Covid-19 pode ajudar a evitar mortes pela doença, segundo resultados clínicos preliminares obtidos no Hospital Sírio-Libanês.

Reprodução/Pixabay

O experimento consiste em aumentar, aos poucos, doses de anticoagulantes em pacientes internados em estado grave e com oxigenação problemática no sangue.

Elnara Negri, professora do departamento de patologia, médica do Lim (Laboratório de Investigação Médica, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP - Universidade de São Paulo) e pneumologista do Sírio-Libanês, diz que a técnica parece promissora, mas lembra que ela está em fase de observação. Um artigo científico com os resultados deve ser publicado nos próximos dias e a pesquisadora espera ampliar o estudo.

Por causa das evidências até agora, os anticoagulantes devem ser usados por alguns grupos de pacientes do Hospital das Clínicas da USP, diz Negri.

Até agora foram tratadas 30 pessoas assim, das quais 25 não precisaram ser intubadas. As outras cinco estão na UTI e iniciaram com o método quando já estavam sob cuidado intensivo. "É pouco. É uma observação clínica de que esses pacientes estão indo bem. Estão ficando sete dias internados, não precisam de aparelhos e vão para casa", diz Negri. "Mas ainda não é algo comprovado."

O procedimento, feito com anticoagulantes hospitalares baratos, já é indicado como sugestão de tratamento no Sírio-Libanês. O Hospital das Clínicas da USP deve fazer o mesmo. "Não é para tomar anticoagulante em casa, sem indicação médica. O remédio pode matar", diz Negri.

As doses mais altas de anticoagulantes visam contrabalançar a ampla ação de defesa do corpo contra a Covid-19.

Para invadir células pulmonares e de outros órgãos, o Sars-CoV-2 quebra barreiras celulares. O corpo, para se defender, desencadeia a "tempestade inflamatória". O organismo, então, ensaia limpeza do estrago feito pelo vírus e começa a "tapar buracos" a partir da formação de coágulos em processo circular, de retroalimentação. O problema é que a coagulação pode sair do controle e provocar tromboembolismo, o entupimento de vasos sanguíneos mais finos, como os capilares que irrigam os alvéolos pulmonares.

Em autópsias de pessoas que morreram pela Covid-19 foram encontrados os bloqueios na microcirculação sanguínea, em especial nos pulmões.

Com a microcirculação afetada, a troca gasosa nos alvéolos -o O2 entra no sangue, e o CO2 é retirado da corrente sanguínea- é prejudicada e, a pessoa sofre problemas de oxigenação no sangue.

"O paciente precisa do respirador porque o vírus estimula que o sangue coagule dentro dos capilares pulmonares. Há coagulação intravascular disseminada", diz Negri. "É um cabo de guerra. Você vai puxando de um lado para não coagular demais, mas não pode puxar muito senão ele sangra."

Em geral, o anticoagulante é administrado para prevenir a trombose venosa profunda em pacientes que de longa permanência em UTIs, mais suscetíveis a problemas de circulação e mobilização após a alta. Essa prescrição é estudada caso a caso conforme o paciente.

Decio Diament, consultor da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) e infectologista no Instituto de Infectologia Emílio Ribas e no Hospital Israelita Albert Einstein, diz que na UTI, até em casos de Covid-19, o uso de anticoagulantes é rotineiro. Mas, quando o bloqueio de circulação parece mais amplo, o uso é indicado como tratamento, não como profilaxia.

Estudo publicado por pesquisadores chineses no dia 27 de março consistiu em administrar o anticoagulante na forma profilática em pacientes com quadro pneumático grave decorrente da Covid-19. Ao mesmo tempo, eles avaliaram pacientes com quadro de pneumonia não relacionada à Covid-19, que não receberam a droga. Resultado: os pacientes tratados com os anticoagulantes tiveram melhora.

O problema do estudo é que não houve um grupo controle de pacientes com Covid-19 que não receberam a droga, o que eliminaria a possibilidade de esses pacientes não desenvolverem trombose de maneira natural.

"O problema é que os anticoagulantes podem causar hemorragias. Seu uso precisa ser muito bem controlado", afirma Diament.

"O negócio é achar o tempo certo, a hora de começar a usar o anticoagulante", afirma Negri. No Sírio-Libanês, os pesquisadores têm utilizado o anticoagulante antes da ida para a UTI, quando a diminuição da oxigenação no sangue do paciente começa.

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