Sul e Centro-Oeste podem se tornar novos epicentros da pandemia

por Katna Baran, Paula Sperb e Marcelo Toledo - Folhapress
   

A pandemia do novo coronavírus, que começou pelo Sudeste, passou pelo Norte e Nordeste do Brasil, agora se fixa no Sul e Centro-Oeste do país. Monitoramento da UFPR (Universidade Federal do Paraná) mostra que a taxa de transmissibilidade da doença está em ascensão nas duas regiões há cerca de três semanas.

AEN-PR

O número indica o esperado de transmissões que devem ocorrer a partir de um infectado. Quando está abaixo de 1, aponta uma queda progressiva da incidência. É o que ocorre no Sudeste, com taxa de 0,93, na terça (30), considerando o número de óbitos pela doença -dado menos volátil, de acordo com os pesquisadores.

No Sul, esse índice chegou a 1,24, seguido do Centro-Oeste, com 1,2. No Brasil, a taxa acumulada é de 0.96.

"A gente não atingiu o mesmo nível da pandemia de outras regiões, mas resta saber até quando vai esse aumento", afirma o estatístico Wagner Bonat, coordenador do estudo da UFPR.

Os estados das duas regiões continuam na parte baixa da tabela de casos e mortes por Covid-19 na comparação com o restante do país. Mas os dados apontam para um crescimento nos próximos dias.

A expansão da pandemia fez com que o governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD), decretasse as primeiras medidas duras, com uma quarentena mais restritiva para metade da população. Os diagnósticos positivos para a doença mais que dobraram em duas semanas -de 9.583 para 23.965. As mortes pela infecção também duplicaram no período- foram de 326 para 650. A taxa de transmissibilidade, considerando os óbitos pela doença, está em 1,17 no estado.

A rapidez na evolução coincidiu com a retomada de praticamente todas as atividades no Paraná, incluindo shoppings e academias.

Mesmo fenômeno é observado em Santa Catarina, em que o aumento de infecções e óbitos está diretamente ligado à flexibilização das atividades, como aponta Fabrício Menegon, chefe do Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Com 1,34, possui a taxa de transmissibilidade mais alta dos três estados, segundo o estudo da UFPR.

No início de junho, o governador Carlos Moisés (PSL) anunciou a gestão compartilhada de combate à pandemia. Os serviços, como o transporte público, passaram a ser flexibilizados regionalmente, considerando o avanço da doença e ações de controle por cidade.

Desde então, o número de casos no estado triplicou -passou de 9.498 para 27.279. Eram 157 óbitos até então, que agora somam 347.

Com medidas duras de isolamento, Florianópolis registrou um mês sem mortes pela Covid-19 no início de junho. Agora, está com quase 81% das UTIs ocupadas e 15 óbitos.

Bonat explica que quando medidas de flexibilização ou endurecimento das restrições são adotadas, elas refletem rapidamente nos números de contágios. Atualmente, a tendência é de aumento dos casos nos três estados.

Porto Alegre está com 80% das UTIs ocupadas, mas há casos, como o Hospital Nossa Senhora da Conceição, em que sobraram apenas 5% de vagas. Segundo o estudo da UFPR, a taxa de transmissão marca 1,29, apontando para um crescimento progressivo.

Na região Centro-Oeste do país, os maiores índices de transmissibilidade são registrados em Mato Grosso e Goiás (ambos com 1,2). No primeiro, a situação é crítica no quadro de UTIs públicas. Nas 13 unidades de oito cidades do estado que atendem pacientes da Covid-19 há pelo menos 75% dos leitos ocupados e, em oito, a taxa está acima de 80%.

Seis delas ficam no interior do estado. Cinco estavam lotadas na última segunda (29). A unidade com mais leitos no interior fica no Hospital Regional de Sinop, sob gestão estadual, onde todas as 20 vagas estavam ocupadas. Na cidade, já são 21 óbitos.

O cenário chegou ao ponto de, em Cáceres, faixas com frases como "Não temos UTI's - Pelo amor de Deus fique em casa" terem sido espalhadas. Os cinco leitos de UTI no Hospital São Luiz estavam ocupados nesta quarta (1º).

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